Quando se discute Green Card EB-2 e EB-2 NIW, taxas de aprovação são o termômetro que mais influencia decisões de candidatos. Os números oficiais publicados pelo USCIS mostram um cenário surpreendente: enquanto Índia, China, Filipinas e Nigéria mantiveram aprovações consistentemente altas na última década, o Brasil seguiu trajetória oposta e se tornou o único país com queda persistente. Entender o porquê dessa divergência é peça-chave para quem planeja submeter um pleito a partir de 2026.
O que o USCIS publica e por que isso importa
O USCIS divulga periodicamente, dentro de seus relatórios trimestrais de imigração, dados de aprovação por categoria de Green Card. Para a EB-2, a desagregação por país de nascimento foca em cinco mercados de alto volume: Índia, China, Filipinas, Brasil e Nigéria. Esses dados não separam EB-2 NIW dos casos com PERM convencional, mas são o melhor indicador agregado do desempenho de cada nacionalidade na categoria.
Para o leitor brasileiro, esse recorte importa porque permite comparar o desempenho do país com o de mercados muito maiores e historicamente mais consolidados. A análise abaixo cobre o período 2014-2024, com a ressalva de que dados de 2024 disponíveis na fonte original incluíam apenas o primeiro a terceiro trimestre fiscal; números consolidados de 2024 e parciais de 2025 podem ajustar a leitura final.
Como cada país se comportou em uma década
Índia: trajetória ascendente
A Índia começou a década com taxas de aprovação em torno de 92,9% em 2014 e fechou o período com mais de 99% em 2024. O volume de petições é desproporcionalmente alto: o país superou 25.000 casos por ano em todos os anos analisados, atingindo cerca de 50.808 em 2016. Taxa elevada e amostra robusta tornam a leitura especialmente confiável.
China: estabilidade no topo
A China oscilou entre 96,7% e 97,9% ao longo da década, com volume entre 4.000 e 13.000 casos por ano. Estabilidade alta combinada com base de petições significativa indica processo de preparação maduro, com escritórios e empresas patrocinadoras consolidados.
Filipinas: volume baixo, taxa decente
As Filipinas variaram entre 76,6% e 95,8%, com volume bem menor – entre 258 e 1.411 casos por ano. Volumes pequenos amplificam variações ano a ano, então parte da volatilidade reflete tamanho de amostra, não necessariamente mudança real na qualidade dos pleitos.
Nigéria: oscilação em platô médio-alto
A Nigéria ficou entre 79,3% e 91,1%, com volume crescente de 264 para 3.411 casos por ano ao longo da década, refletindo o aumento expressivo de candidatos do país.
Brasil: a anomalia preocupante
O Brasil viveu duas fases distintas. Entre 2014 e 2017, manteve aprovações entre 88,8% e 95,8%, ombro a ombro com os outros países. A partir de 2018, a curva inverteu: caiu para 70,7% em 2018, atingiu o piso de 57,4% em 2023 e teve leve recuperação para 64,7% em 2024. No mesmo período, o volume de casos brasileiros cresceu vertiginosamente, saltando de 363 em 2014 para 6.870 em 2023.
Por que a curva brasileira despencou
A combinação de dois fatores explica a maior parte da queda. Primeiro, o boom de candidaturas brasileiras a partir de 2018 atraiu uma onda de prestadores de serviço que pedalaram a categoria com pleitos genéricos, planos de empreendimento copiados, cartas de recomendação fora de padrão e perfis profissionais que não atendiam ao critério de qualificação avançada. Petições mal preparadas elevam a taxa de negativa.
Segundo, a USCIS aumentou o rigor de análise para nacionalidades com aumento abrupto de volume. Esse é um padrão histórico em categorias percebidas como saturadas: oficiais passam a aplicar a régua de Dhanasar com leitura mais estrita, exigem evidências mais robustas e emitem mais Requests for Evidence. Brasileiros que apresentaram pleitos genéricos receberam o impacto direto desse aperto.
O que isso não significa
O dado agregado não representa a probabilidade individual de aprovação. Um pleito brasileiro bem construído, com empreendimento específico, evidências documentais robustas e cartas de pares de alto nível, segue tendo aprovação compatível com a média de países como China e Índia. A taxa nacional reflete o conjunto de pleitos enviados, incluindo os mal preparados.
Implicações práticas para 2026
Quem planeja submeter EB-2 NIW como brasileiro precisa internalizar a leitura: o pleito médio de brasileiros é insuficiente. Investir mais tempo na escolha do empreendimento, na construção do plano técnico, no recrutamento de cartas de recomendação e na curadoria de evidências passou a ser obrigatório. Petições enviadas com prazo apertado, sem revisão técnica e jurídica detalhada, têm desempenho pior que a média global.
Outro ponto: a queda de aprovação convive com retrocessos no Visa Bulletin para EB-2 nascidos no Brasil. Mesmo aprovações eventualmente esbarram em fila para emissão do Green Card. Planejamento realista combina os dois indicadores – qualidade da petição e Final Action Date – para estimar custo e prazo total da estratégia.
Como ler dados estatísticos sem ilusão
Estatísticas agregadas servem para identificar tendências e calibrar expectativas. Não substituem análise individual de elegibilidade, nem garantem ou condenam um caso específico. O candidato que decide pela via NIW com base apenas em taxa de aprovação histórica corre dois riscos: superestimar a chance ao olhar para Índia ou China, e subestimar a viabilidade ao olhar apenas para o Brasil. A leitura honesta exige cruzar tendência nacional, perfil pessoal e qualidade do pleito proposto.
Victoria Harper
Editora-Chefe
Como jornalista e editora líder do Visto n’ Visa, Victoria contribui para que os temas de imigração sejam abordados de forma clara, confiável e fácil de entender. Seu foco é oferecer conteúdo útil, humano e relevante para pessoas que exploram novos caminhos no exterior.