A política migratória dos Estados Unidos atravessou em 2025 duas mudanças que continuam moldando decisões de empresas, profissionais e investidores em 2026. A primeira foi a imposição de uma taxa adicional de US$ 100 mil sobre novas petições H-1B destinadas a trabalhadores no exterior. A segunda foi o anúncio do chamado Gold Card Visa, uma proposta de residência permanente vinculada a contribuições financeiras milionárias. Juntas, essas medidas redesenham o cálculo de quem busca trabalhar ou investir nos Estados Unidos e exigem entendimento técnico antes de qualquer decisão de mobilidade.
A nova taxa sobre o H-1B
Em 19 de setembro de 2025, o presidente assinou uma proclamação presidencial criando uma taxa suplementar de US$ 100.000 aplicável a determinadas petições H-1B. A medida entrou em vigor às 00h01 de 21 de setembro de 2025, horário do leste dos Estados Unidos, e foi a maior alteração isolada de custo já imposta ao programa em sua história.
Após dias de confusão sobre o alcance da medida, o United States Citizenship and Immigration Services (USCIS) e a Casa Branca esclareceram que a taxa incide apenas sobre novas petições H-1B apresentadas em favor de trabalhadores que se encontram fora dos Estados Unidos e que precisarão de processamento consular para obter o visto. Foram excluídos do escopo: extensões, transferências de empregador para trabalhadores já presentes em território americano, mudanças de status, alterações de termos de emprego e amendments para profissionais que já possuem H-1B válido.
Para empregadores, a leitura prática é direta. Contratar um profissional que já está nos Estados Unidos sob qualquer status válido continua relativamente acessível, enquanto trazer um candidato diretamente do exterior tornou-se um movimento de capital intensivo. Empresas de menor porte e startups, que historicamente patrocinavam talento internacional como vantagem competitiva, passaram a reavaliar o uso do H-1B para contratações fora do país.
Quem absorve o custo da taxa
O H-1B é um visto patrocinado: a petição é apresentada pelo empregador, e a legislação proíbe que o custo da petição seja repassado ao trabalhador. Isso vale também para a taxa suplementar de US$ 100 mil. Na prática, o empregador americano assume o valor, o que reduz drasticamente o universo de empresas dispostas a financiar uma contratação internacional sob a nova regra.
Setores de tecnologia, engenharia e pesquisa científica concentram historicamente o uso do H-1B. Grandes empregadores ajustaram suas estratégias com mais transferências internas via L-1, conversões para EB-1 ou EB-2 quando o perfil permite, e uso ampliado do O-1 para profissionais com habilidades extraordinárias. Para o profissional brasileiro, o efeito imediato é a perda de competitividade do H-1B como porta de entrada no mercado americano.
O Gold Card Visa
A segunda proposta anunciada em 2025 foi o Gold Card Visa, descrito originalmente como um caminho acelerado para residência permanente mediante contribuição financeira de US$ 5 milhões por indivíduo. A proposta foi apresentada como substituta ou alternativa ao programa EB-5, categoria que, ao contrário do Gold Card, exige investimento em projeto qualificado, criação de empregos e supervisão regulatória do USCIS.
O Gold Card, na formulação anunciada, transferiria parte da estrutura decisória para o Departamento do Comércio, contornando o trâmite tradicional de petições migratórias. Críticos argumentam que ela coloca o benefício migratório à disposição de quem tiver capacidade financeira, sem os contrapesos que o EB-5 oferece em geração de empregos e impacto econômico mensurável.
Até o momento, o Gold Card permanece como anúncio executivo, não como categoria estatutária plenamente operacional. Qualquer decisão de migração baseada nessa proposta exige acompanhamento atento dos atos regulatórios subsequentes e consulta a fontes oficiais antes de comprometer capital.
EB-5 segue como rota regulamentada
Para quem dispõe de capital significativo e busca residência permanente, o EB-5 continua sendo a via legal estabelecida. O programa exige investimento mínimo de US$ 800 mil em áreas de emprego prioritário (Targeted Employment Areas) ou US$ 1,05 milhão em áreas regulares, com criação de pelo menos dez empregos qualificados em até dois anos. A reforma de 2022, conhecida como EB-5 Reform and Integrity Act, modernizou o programa e introduziu reservas anuais de vistos para investidores rurais, em alta taxa de desemprego e em projetos de infraestrutura.
Em comparação ao Gold Card anunciado, o EB-5 oferece previsibilidade processual: prazos de adjudicação publicados, revisão pelo USCIS, e enquadramento legal consolidado em jurisprudência migratória.
Alternativas para profissionais qualificados
Diante da escalada de custo do H-1B, profissionais com perfil técnico ou acadêmico avaliam categorias que dispensam patrocínio do empregador americano ou tornam o patrocínio mais previsível.
O EB-2 National Interest Waiver permite que o próprio profissional apresente a petição, sem oferta de emprego nem certificação trabalhista, desde que demonstre que sua atuação serve ao interesse nacional dos Estados Unidos. É a rota mais escolhida por profissionais STEM com mestrado, doutorado ou bacharelado com cinco anos de experiência progressiva.
O EB-1A, voltado a indivíduos com habilidade extraordinária, dispensa empregador e oferece prioridade processual. Exige evidência robusta de reconhecimento internacional ou nacional sustentado.
O O-1A, embora não-imigratório, é frequentemente utilizado como ponte para EB-1A ou EB-2 NIW e admite múltiplos empregadores ou trabalho autônomo qualificado.
Cada categoria tem requisitos distintos, custos governamentais menores que a nova taxa do H-1B e independem em grande medida da disposição de uma empresa americana em arcar com despesas extraordinárias.
Como avaliar o impacto no seu caso
Profissionais e empresas que estavam estruturando movimentações sob o H-1B precisam revisar três pontos antes de decidir o próximo passo: a localização do trabalhador no momento da petição, a existência de status válido nos Estados Unidos que permita uma transferência interna, e a possibilidade de migrar diretamente para uma categoria imigratória, em vez de passar por um visto de trabalho temporário.
Contratantes corporativos avaliam se a função se enquadra em L-1A ou L-1B (transferências intra-empresariais), em E-2 (para nacionais de países com tratado e estrutura de investimento) ou em rotas baseadas em emprego de longo prazo. Para profissionais autônomos e empreendedores, EB-2 NIW e O-1A continuam sendo caminhos relevantes mesmo sob o novo cenário.
O ambiente regulatório segue em movimento. Litígios contra a proclamação da taxa do H-1B foram registrados em cortes federais, e a configuração final do Gold Card depende de atos normativos subsequentes. Decisões definitivas devem considerar tanto o quadro vigente quanto a possibilidade de alterações ao longo de 2026.
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Victoria Harper
Editora-Chefe
Como jornalista e editora líder do Visto n’ Visa, Victoria contribui para que os temas de imigração sejam abordados de forma clara, confiável e fácil de entender. Seu foco é oferecer conteúdo útil, humano e relevante para pessoas que exploram novos caminhos no exterior.