O pacote regulatório que vem sendo costurado em Washington a partir de 2025 está prestes a alterar profundamente o acesso de profissionais e estudantes internacionais aos Estados Unidos. Empregadores, universidades e portadores de visto devem se preparar para um biênio em que custos sobem, prazos se alongam e o crivo administrativo se torna mais hostil. As mudanças combinam aumento do salário mínimo obrigatório para o H-1B, taxa adicional inédita por petição, fim do regime flexível de permanência para estudantes e endurecimento sistemático na análise de pedidos de Green Card baseado em emprego.
O contexto é decisivo para qualquer estratégia de mobilidade qualificada em 2026 e 2027. Profissionais da Índia, Brasil, México, Filipinas, China, Nigéria e dezenas de outros países que historicamente acessam o mercado norte-americano via H-1B agora encontram barreiras de custo e tempo que tornam imprescindível o planejamento antecipado. Universidades de pesquisa, hospitais, empresas de tecnologia e escritórios de engenharia precisam recalibrar políticas de patrocínio sob risco de perder talento estratégico.
Aumento do salário prevalecente
Em março de 2026, o Departamento do Trabalho publicou proposta de regra que eleva substancialmente os prevailing wages exigidos para autorizar tanto petições H-1B quanto certificações trabalhistas PERM para Green Card baseado em emprego. A elevação varia de 21% a 33%, conforme o nível de experiência do trabalhador classificado nas quatro faixas do sistema OES.
Na prática, a regra mexe na régua que define quanto um empregador precisa pagar a um profissional estrangeiro para que o salário ofertado seja considerado equivalente ao de trabalhadores domésticos. Quando o salário ofertado é inferior ao novo piso, a petição é negada ou a certificação trabalhista não avança. O efeito mais imediato será sobre cargos de nível inicial e intermediário, justamente as faixas que concentram engenheiros recém-formados, médicos residentes, cientistas em pós-doc e profissionais de tecnologia em início de carreira.
O período de comentários públicos da regra se encerra no fim de maio de 2026. A expectativa de advogados especializados em imigração é que a versão final seja publicada entre o último trimestre de 2026 e o primeiro semestre de 2027. Uma vez vigente, a regra alcança não apenas novas petições, mas também extensões e mudanças de empregador que dependam de novo Labor Condition Application.
Fim do duration of status
Estudantes internacionais matriculados em programas norte-americanos vivem hoje sob a doutrina do duration of status, segundo a qual a permanência legal nos Estados Unidos se mantém enquanto o aluno preserva matrícula ativa e cumpre as condições do visto F-1 ou J-1. Em agosto de 2025, o Departamento de Segurança Interna propôs substituir esse regime por períodos fixos de admissão, com prazo determinado e necessidade de pedir extensão formal ao USCIS para continuar matriculado.
A consequência é direta para programas de pós-graduação, doutorados, residências médicas, MBAs com duração superior a dois anos e qualquer curso que ultrapasse o teto fixo proposto na regra. Estudantes de doutorado, em particular, ficariam sujeitos a uma ou mais rodadas de extensão durante o curso, com risco de negação caso o USCIS entenda que houve progressão acadêmica inadequada. O resultado provável é o desestímulo a candidatos internacionais que comparam alternativas no Canadá, Reino Unido, Alemanha, Países Baixos e Austrália, onde o regime de permanência segue mais previsível.
Taxa de US$ 100 mil sobre H-1B
Em setembro de 2025, o governo federal impôs uma taxa adicional de US$ 100 mil sobre a entrada de novos portadores de visto H-1B, cobrada do empregador patrocinador. A medida atinge predominantemente novas petições, mas relatos de prática administrativa indicam que o USCIS tem aplicado a cobrança em situações que excedem o escopo originalmente previsto, gerando litígio.
O impacto sobre o mercado é desigual. Grandes empresas de tecnologia continuam patrocinando, ainda que com seleção mais rigorosa. Médias empresas reduziram drasticamente o número de petições. Pequenos empregadores, hospitais regionais e instituições acadêmicas com orçamento limitado simplesmente saíram da categoria. O resultado é uma concentração ainda maior do H-1B em poucas empresas de grande porte, justamente o efeito oposto ao alegado pelo governo ao defender que a taxa protegeria pequenos negócios.
Aumento de RFEs e negações
Pedidos de evidência conhecidos como Requests for Evidence tornaram-se sistemáticos em petições H-1B e em ajustes de status para Green Card. Analistas do USCIS estão questionando cálculos salariais mesmo quando os empregadores seguem corretamente as diretrizes oficiais publicadas pelo próprio Departamento do Trabalho. Novas perguntas incluídas no formulário I-129 estão sendo utilizadas para fundamentar exigências adicionais relacionadas ao salário ofertado, criando ciclos de resposta que prolongam os processos por meses.
Análise da National Foundation for American Policy aponta aumento expressivo das taxas de negação nas categorias EB-1 e EB-2, tradicionalmente utilizadas por profissionais com habilidades extraordinárias, pesquisadores e portadores de mestrado ou doutorado. O EB-2 NIW, modalidade que dispensa oferta de emprego mediante demonstração de interesse nacional, também figura entre as categorias sob escrutínio mais intenso, com exigências cada vez mais altas para demonstrar contribuição substancial.
Processamento premium em colapso
O serviço de processamento premium, pelo qual o empregador paga taxa adicional para resposta em quinze dias úteis, vem ultrapassando rotineiramente os prazos contratuais em 2026. Em casos extremos, observadores relatam petições que sequer iniciam análise de mérito após o pagamento da taxa. Para empresas que dependem de cronogramas previsíveis para contratação e relocação internacional, a falência do premium adiciona camada de incerteza ao planejamento de mobilidade.
A combinação de premium emperrado com a taxa de US$ 100 mil produz um efeito perverso: o empregador paga mais para receber menos previsibilidade. Estratégias de contingência incluem patrocínio antecipado, uso de O-1 para perfis qualificados como talentos extraordinários, deslocamento de funções para subsidiárias no Canadá ou México e migração de operações para outros hubs globais.
Fiscalização do Departamento do Trabalho
Empresas patrocinadoras enfrentam auditorias mais frequentes e agressivas do Wage and Hour Division do DOL. As inspeções verificam se o salário pago corresponde ao prometido no Labor Condition Application, se a função exercida confere com a descrição da petição e se o local de trabalho informado é, de fato, onde o profissional atua. Discrepâncias podem resultar em multas, devolução de salários, debarment temporário do programa H-1B e revogação retroativa de petições aprovadas.
O sinal para os departamentos jurídicos e de recursos humanos é claro: documentação contemporânea de função, salário e localização deixou de ser boa prática para se tornar requisito defensivo. Mudanças de função, alteração de local de trabalho ou trabalho remoto fora da área metropolitana original exigem amendments imediatos, sob pena de exposição em auditoria.
Consulados mais lentos e exigentes
O lado consular completa o quadro. Entrevistas para emissão de visto têm prazos crescentes em postos consulares de Mumbai, Hyderabad, Chennai, Lagos, Cidade do México, São Paulo, Manila e Pequim. A taxa de visa refusal sob a seção 214(b) também aumentou, sobretudo para perfis F-1 e B-1/B-2 vinculados a candidatos que claramente já demonstram interesse imigratório. Renovações que antes prescindiam de entrevista voltaram a ser convocadas para presença física em alguns postos.
Alternativas globais ganham tração
O encarecimento e o engessamento do mercado norte-americano deslocaram a atenção de profissionais qualificados para programas concorrentes. O Canadá segue como porta de entrada via Express Entry e categorias provinciais. O Reino Unido reformou o Skilled Worker Visa para atrair talentos em tecnologia, saúde e engenharia. Alemanha lançou o Chancenkarte, voltado a profissionais com formação reconhecida. Portugal e Espanha consolidaram regimes de nômade digital e residência para profissionais qualificados. Austrália e Nova Zelândia atualizaram listas de ocupações em demanda.
Para o profissional internacional, o cálculo agora envolve comparar não apenas salários, mas também previsibilidade regulatória, custo total de patrocínio, prazo até a residência permanente e qualidade de vida da família. Empresas globais que dependem de mobilidade interna passaram a estruturar relocações multi-hub, mantendo o profissional em jurisdição amigável enquanto o status norte-americano é resolvido.
O biênio 2026-2027 será definido pela capacidade de adaptação. Quem planejar com antecedência, documentar com rigor e considerar rotas alternativas reduzirá riscos. Quem assumir que o regime atual se manterá inalterado, especialmente nas faixas de entrada do H-1B e nos programas de pós-graduação, encontrará barreiras crescentes a cada nova petição.
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Victoria Harper
Editora-Chefe
Como jornalista e editora líder do Visto n’ Visa, Victoria contribui para que os temas de imigração sejam abordados de forma clara, confiável e fácil de entender. Seu foco é oferecer conteúdo útil, humano e relevante para pessoas que exploram novos caminhos no exterior.