O casamento com cidadão americano é uma das rotas mais diretas para a residência permanente nos Estados Unidos, mas também uma das mais escrutinadas pelo governo. O USCIS aprova centenas de milhares desses pedidos por ano e, ao mesmo tempo, dedica parte significativa de seus recursos a investigar fraudes matrimoniais. Entender como o processo funciona e quais provas são esperadas é o que separa um caso aprovado em meses de um caso negado, com consequências graves para ambos os cônjuges.
Quem tem direito ao pedido
Existem dois cenários distintos. O primeiro é o casamento com cidadão americano, em que o cônjuge estrangeiro entra na categoria de parente imediato (immediate relative) sob a seção 201(b) do INA. Não há limite anual de vistos nem fila de espera por país. O segundo é o casamento com residente permanente legal (titular de green card), classificado na categoria F2A. Nessa categoria existe fila e os tempos variam conforme o Visa Bulletin do mês corrente – geralmente entre meses e um ano.
Em ambos os casos, o cônjuge estrangeiro pode estar dentro ou fora dos Estados Unidos. Se estiver dentro e tiver entrado de forma legal, em regra é possível pedir ajuste de status sem sair do país, com formulário I-485. Se estiver fora, o caso vai para processamento consular via DOS, com entrevista no consulado americano do país de residência.
Os formulários envolvidos
O processo padrão para casamento com cidadão americano costuma combinar:
- I-130 (Petition for Alien Relative) – petição apresentada pelo cônjuge americano para reconhecer o vínculo familiar.
- I-485 (Application to Register Permanent Residence or Adjust Status) – pedido de ajuste de status, quando o estrangeiro está nos EUA.
- I-130A – formulário suplementar com informações biográficas do cônjuge estrangeiro.
- I-864 (Affidavit of Support) – declaração de suporte financeiro, em que o cidadão se compromete a sustentar o cônjuge se necessário.
- I-765 e I-131 – opcionais durante o ajuste de status, dão direito a permissão de trabalho (EAD) e autorização de viagem (Advance Parole) enquanto o caso é analisado.
Que provas o USCIS espera ver
O ônus da prova é do casal. O USCIS quer evidência de que a relação é genuína (bona fide marriage) e não um arranjo construído apenas para obter status migratório. Documentos típicos incluem:
- Conta bancária conjunta com extratos cobrindo período relevante
- Contratos de aluguel, escrituras ou contas de utilidades em nome dos dois
- Apólices de seguro saúde, vida ou automóvel listando o cônjuge como beneficiário
- Declarações de imposto de renda apresentadas em conjunto (filing jointly)
- Fotos do casal ao longo da relação, idealmente com data e contexto variado
- Registros de viagens feitas juntos: passagens, reservas, fotos
- Certidões de nascimento de filhos comuns, se houver
- Cartas e declarações juramentadas (affidavits) de amigos, familiares e empregadores que conheçam o casal
- Histórico de comunicação: mensagens, e-mails, registros de chamadas durante períodos de separação
A entrevista no USCIS
A entrevista é etapa quase certa em casos baseados em casamento. Ambos os cônjuges comparecem juntos. O oficial faz perguntas sobre o relacionamento – como se conheceram, rotina diária, preferências do parceiro, planos futuros, detalhes da casa, da família estendida. O objetivo é detectar inconsistências entre as respostas dos dois.
Se o oficial suspeitar de fraude, o casal pode ser submetido à chamada Stokes interview, em que cada cônjuge é entrevistado separadamente e as respostas são comparadas. Inconsistências sobre fatos básicos da vida em comum levam à negação e podem desencadear processo criminal contra o cidadão americano e procedimento de remoção contra o estrangeiro.
Green card condicional para casamentos recentes
Quando o casamento tem menos de dois anos no momento da aprovação, o estrangeiro recebe green card condicional com validade de dois anos, conforme a seção 216 do INA. Antes de expirar, o casal precisa apresentar conjuntamente o formulário I-751 (Petition to Remove Conditions on Residence) com novas evidências de que o casamento continua genuíno. Aprovado o I-751, o estrangeiro recebe green card de dez anos, sem condicionalidade.
Existem exceções (waivers) para o caso de divórcio antes do fim do período condicional, óbito do cônjuge, abuso doméstico ou hardship extremo. Em qualquer cenário, perder o prazo do I-751 sem ajustar a situação leva à perda automática do status.
Riscos e armadilhas
O risco mais grave é a acusação formal de fraude matrimonial. As consequências são severas: o estrangeiro perde direito permanente a qualquer benefício imigratório futuro nos EUA (INA 204(c)) e pode ser deportado. O cidadão americano pode responder por crime federal, com pena prevista de até cinco anos de prisão e multa de até US$ 250 mil.
Outras armadilhas comuns:
- Documentação financeira insuficiente – o I-864 exige que o sponsor demonstre renda mínima equivalente a 125% do federal poverty guideline para o tamanho da família. Quando a renda do cidadão é insuficiente, é preciso adicionar um joint sponsor.
- Histórico migratório complicado do estrangeiro – entradas anteriores sem inspeção, períodos longos de overstay, ou entradas com vistos para fins distintos podem disparar inadmissibilidades que exigem waivers (I-601, I-601A) antes da aprovação.
- Preparação inadequada para a entrevista – casais legítimos chegam despreparados, dão respostas evasivas e geram desconfiança evitável.
- Documentos traduzidos sem certificação adequada – toda evidência em idioma estrangeiro precisa de tradução certificada para o inglês.
Prazos atuais
Os tempos variam por escritório regional do USCIS, mas em meados de 2026 a maior parte dos casos de ajuste de status com I-485 baseado em casamento com cidadão americano leva entre 10 e 18 meses do envio à entrevista, com EAD e Advance Parole concedidos antes – em geral em torno de seis a oito meses após o protocolo. Casos via processamento consular dependem do volume do consulado específico.
O caminho do casamento é legítimo, comum e bem mapeado. O que diferencia um processo bem-sucedido é a combinação de relacionamento autêntico, documentação organizada desde o início e domínio das exigências do USCIS antes de assinar qualquer formulário.
Victoria Harper
Editora-Chefe
Como jornalista e editora líder do Visto n’ Visa, Victoria contribui para que os temas de imigração sejam abordados de forma clara, confiável e fácil de entender. Seu foco é oferecer conteúdo útil, humano e relevante para pessoas que exploram novos caminhos no exterior.