O Golden Visa de Portugal continua sendo um dos programas de residência por investimento mais procurados do mundo, mesmo após a reforma profunda de 2023 que eliminou o imobiliário como rota de qualificação. Em 2026, o programa permanece ativo sob administração da AIMA – Agência para a Integração, Migrações e Asilo, criada em outubro de 2023 para substituir o extinto SEF. As regras se tornaram mais estritas, mas o caminho para residência europeia segue aberto para investidores não-comunitários dispostos a apoiar fundos, pesquisa científica, criação de empregos ou herança cultural.
Este guia detalha o que mudou, o que permaneceu e como o processo realmente funciona em 2026.
O que é o Golden Visa português
Oficialmente chamado de Autorização de Residência para Atividade de Investimento (ARI), o programa foi criado em 2012 para atrair capital estrangeiro a Portugal. Em troca de um investimento qualificado, o titular obtém autorização de residência que permite viver, estudar e trabalhar no país, com requisito mínimo de permanência de apenas sete dias por ano. Após cinco anos mantendo o investimento e cumprindo o requisito de permanência, o titular pode requerer residência permanente ou a cidadania portuguesa.
A reforma de 2023
A pressão sobre o mercado imobiliário levou o governo português a aprovar a Lei n.º 56/2023 (conhecida como pacote Mais Habitação), que entrou em vigor em outubro de 2023 e eliminou completamente as modalidades baseadas em compra de imóveis — antes responsáveis por mais de 90% das aprovações. A iniciativa redirecionou o programa para investimentos produtivos com impacto direto na economia, ciência e cultura portuguesas.
Modalidades qualificadas em 2026
- Fundos de capital de risco ou venture capital: investimento mínimo de €500.000 em fundos regulados pela CMVM, com pelo menos 60% do portfólio em empresas portuguesas e duração mínima de cinco anos. Esta é hoje a rota mais utilizada.
- Pesquisa científica: doação de €500.000 para instituições públicas ou privadas integrantes do sistema científico e tecnológico nacional.
- Patrimônio cultural: investimento de €250.000 em apoio artístico, recuperação ou manutenção de patrimônio cultural português, através de serviços ou entidades públicas.
- Criação de empresa com 10 postos de trabalho: constituição de empresa em Portugal que mantenha pelo menos dez vagas formais durante o período de validade da autorização.
- Empresa + capital: investimento de €500.000 em sociedade comercial já constituída ou nova, combinado com a criação de cinco postos de trabalho permanentes.
O equivalente em dólares varia conforme o câmbio. Em meados de abril de 2026, €500.000 correspondem a aproximadamente US$ 545.000 e €250.000 a cerca de US$ 273.000.
Quem pode candidatar-se
O programa é aberto a qualquer cidadão de país fora da União Europeia, do Espaço Econômico Europeu ou da Suíça. Brasileiros, americanos, indianos, sul-africanos e nacionais de praticamente qualquer país lusófono ou fora do bloco europeu são elegíveis.
Os requisitos pessoais permanecem estáveis desde a criação do programa:
- Ter pelo menos 18 anos completos
- Possuir passaporte válido
- Apresentar registro criminal limpo do país de origem e de qualquer país onde tenha residido por mais de um ano
- Comprovar a origem lícita dos fundos investidos
- Manter seguro de saúde válido em território português
- Obter o NIF (Número de Identificação Fiscal) e abrir conta bancária em Portugal
- Estar em situação regular perante a Autoridade Tributária e a Segurança Social portuguesas
O conhecimento básico de português nível A2 só é exigido na fase posterior, quando o titular requer a cidadania após cinco anos de residência legal.
O processo passo a passo
Etapa prévia
Antes mesmo de apresentar o pedido, o candidato precisa obter o NIF junto da Autoridade Tributária, abrir conta bancária em instituição portuguesa e transferir os recursos do investimento a partir de fonte estrangeira documentada.
Submissão do pedido
Desde 2022, todo o processo passou a ser inteiramente digital pelo portal ARI da AIMA. O requerente carrega digitalmente o passaporte, comprovativos do investimento, certidões criminais (apostiladas e traduzidas), declarações fiscais, comprovante de seguro de saúde e demais documentos requeridos.
Análise e aprovação prévia
A AIMA realiza a análise documental e verificações de segurança. Esta etapa é o gargalo atual do programa: o acúmulo herdado do extinto SEF e a transição institucional levaram a uma fila significativa de processos pendentes.
Biométricos e título de residência
Após aprovação prévia, o requerente comparece a uma loja AIMA em Portugal para coleta de dados biométricos. O cartão físico de residência é emitido em seguida e tem validade inicial de dois anos, renovável por períodos adicionais de três anos.
Quanto tempo demora hoje
Os prazos foram severamente afetados pela transição do SEF para a AIMA e pelo backlog herdado. Em 2026, a expectativa realista é de 24 a 36 meses entre a submissão do pedido e a emissão do primeiro cartão de residência, conforme dados consolidados pela própria AIMA e relatos da comunidade de candidatos.
Importante: a contagem do prazo para fins de naturalização passou a iniciar a partir da data de submissão do pedido, e não mais da emissão do cartão, conforme decisão do Tribunal Constitucional português. Isso mitiga, em parte, o impacto prático da fila para quem mira a cidadania.
Benefícios práticos
O Golden Visa garante livre circulação no Espaço Schengen, atualmente formado por 29 países europeus, sem necessidade de vistos adicionais. O passaporte português, obtido após cinco anos, permite acesso sem visto a mais de 175 países, incluindo Estados Unidos sob ESTA.
O grupo familiar do titular pode ser incluído desde a aplicação inicial. Cônjuges, parceiros em união de fato registrada, filhos menores, filhos maiores dependentes economicamente e até pais dependentes financeiramente podem obter o mesmo status do requerente principal.
O Regime do Residente Não Habitual (RNH), que oferecia incentivos fiscais agressivos, foi extinto em 2024 para novos residentes. Em seu lugar, vigora o Incentivo Fiscal à Investigação Científica e Inovação (IFICI), com escopo bem mais restrito, voltado a profissionais qualificados em áreas específicas.
Para quem o programa faz sentido em 2026
O Golden Visa português é mais adequado para investidores que desejam um caminho seguro para a União Europeia sem precisar mudar imediatamente, que têm capital de pelo menos meio milhão de euros disponível para imobilizar por cinco anos, e que valorizam a passagem para a cidadania europeia ao final do processo. Para quem busca residir efetivamente em Portugal desde o primeiro momento, outras vias — como o visto D7 para rendimentos passivos ou o D8 para nômades digitais — podem ser mais rápidas e menos onerosas.
A complexidade documental e o ambiente regulatório em transição tornam essencial o acompanhamento por profissionais especializados em direito de imigração portuguesa. Erros formais podem reiniciar partes do processo e somar meses ou anos à espera.
Victoria Harper
Editora-Chefe
Como jornalista e editora líder do Visto n’ Visa, Victoria contribui para que os temas de imigração sejam abordados de forma clara, confiável e fácil de entender. Seu foco é oferecer conteúdo útil, humano e relevante para pessoas que exploram novos caminhos no exterior.