O processo de visto americano mudou de forma estrutural a partir de 2 de setembro de 2025. O Departamento de Estado dos Estados Unidos publicou nova orientação que reduziu drasticamente as hipóteses de dispensa de entrevista consular (interview waiver), atingindo brasileiros e cidadãos do mundo inteiro que pretendiam renovar vistos pelo correio ou enviar passaportes via dropbox. A regra encerra um período de flexibilização ampliado durante a pandemia e impõe maior fluxo presencial aos consulados americanos em todo o mundo.
Para quem já tinha o visto vencido há mais de doze meses, ou para menores de 14 anos e idosos acima de 79 anos que antes recebiam isenção automática, a mudança significa retornar ao consulado pessoalmente. O impacto é direto sobre famílias com crianças pequenas, aposentados, estudantes em renovação e profissionais que migram entre vistos de trabalho.
O que mudou na política de waiver
Antes de setembro de 2025, era possível renovar vistos de não-imigrante nos EUA sem comparecer ao consulado em diversas situações: visto anterior expirado há até 48 meses na mesma categoria, menores de 14 anos com pais já vistados, e maiores de 79 anos. Estas isenções por idade e a janela ampla de 48 meses foram extintas.
A regra atual, conforme orientação do Departamento de Estado, restringe o waiver a um conjunto fechado de cinco condições cumulativas, somadas a hipóteses pontuais para vistos diplomáticos.
Quem ainda pode escapar da entrevista
O solicitante de visto B-1/B-2 (turismo e negócios) pode pleitear dispensa de entrevista se, e somente se, atender a todos os requisitos abaixo:
- O visto anterior é da mesma classificação e está válido ou expirou há menos de doze meses;
- O solicitante tem ao menos 18 anos completos na data de emissão do visto anterior;
- A renovação é feita no país de nacionalidade ou residência habitual;
- Nunca houve recusa de visto, ou eventual recusa foi formalmente superada;
- Não há inelegibilidade aparente ou potencial sob a Seção 212(a) da INA.
Mesmo cumprindo todos os critérios, o oficial consular tem discricionariedade para convocar entrevista presencial. A dispensa é uma faculdade administrativa, não um direito.
Categorias que perderam a flexibilidade
A renovação sem entrevista deixou de ser opção administrativa para vistos de trabalho e estudo. Solicitantes de H-1B, L-1, F-1, O-1, J-1, E-2, P-1, R-1 e demais categorias de não-imigrante terão de agendar entrevista mesmo em renovações idênticas à concessão original. Isso inclui também o visto de noivo K-1, vistos de cônjuge K-3 e os vistos imigrantes baseados em família ou emprego, que já exigiam entrevista por padrão.
As poucas categorias mantidas em regime de isenção automática são as diplomáticas e oficiais: A-1, A-2, G-1 a G-4, NATO-1 a NATO-6, C-3 e TECRO E-1. Vistos de tripulação militar e missões oficiais mantêm tratamento próprio.
Impacto prático nos consulados
O retorno em massa do atendimento presencial pressiona a capacidade dos consulados americanos em São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Brasília e Porto Alegre, além das embaixadas pelo mundo. Tempos de espera para agendamento, que durante o waiver giravam em torno de algumas semanas, voltaram a ser medidos em meses. Em postos de alta demanda, a fila para entrevista B-1/B-2 já ultrapassou prazos de seis a doze meses em diversos momentos.
Na prática, qualquer planejamento de viagem aos Estados Unidos em 2026 deve assumir prazo consular como variável dominante: o agendamento da entrevista, e não a obtenção do visto em si, costuma ser o gargalo. Quem precisa do visto para data específica precisa iniciar o processo com seis a doze meses de antecedência.
Estratégias para minimizar atrasos
Há três movimentos que reduzem a exposição ao gargalo do agendamento. Primeiro, monitorar a página oficial de tempos de espera por consulado em travel.state.gov, que publica dados semanais de wait time para entrevista de visto de não-imigrante. Segundo, considerar agendamento em consulado de terceiro país (third country national processing) quando permitido pela categoria, embora a partir de setembro de 2025 a renovação fora do país de residência tenha ficado mais restrita. Terceiro, agir imediatamente após a publicação dos slots, já que vagas em São Paulo costumam abrir em lotes irregulares.
Documentação que faz diferença na entrevista
Com a entrevista presencial obrigatória, o oficial consular tem dez a quinze minutos para decidir o caso. A organização documental virou fator decisivo. Para vistos B-1/B-2, comprovação robusta de vínculos com o país de origem (emprego estável, propriedades, família) continua sendo o ponto central. Para H-1B em renovação, contracheques recentes, carta atualizada do empregador e cópia do I-797 vigente são exigidos. Para F-1, I-20 atualizado, comprovação de mensalidade e progresso acadêmico não podem faltar.
O DS-160 deve refletir a realidade atual: viagens recentes, mudanças de endereço, novos empregadores. Discrepâncias entre o formulário e respostas verbais podem motivar 221(g) (administrative processing) ou recusa direta sob 214(b).
O que esperar adiante
A diretriz publicada em 2025 não é um experimento temporário. Sinaliza a postura mais conservadora do Departamento de Estado quanto à triagem consular, alinhada à política de imigração mais rigorosa em vigor desde o início do segundo mandato Trump em janeiro de 2025. Não há indicação oficial de retorno ao regime ampliado de waivers no curto prazo.
Para o cidadão brasileiro que pretende viajar, estudar ou trabalhar nos Estados Unidos, o cenário consolida uma realidade: o visto americano voltou a ser, na prática, um processo presencial em quase todas as categorias. Quem se planejar com antecedência, monitorar tempos de espera e organizar documentação consistente terá vantagem clara sobre quem deixar para a última hora.
Victoria Harper
Editora-Chefe
Como jornalista e editora líder do Visto n’ Visa, Victoria contribui para que os temas de imigração sejam abordados de forma clara, confiável e fácil de entender. Seu foco é oferecer conteúdo útil, humano e relevante para pessoas que exploram novos caminhos no exterior.