O EB-2 com National Interest Waiver é uma das categorias mais cobiçadas para profissionais qualificados que buscam o Green Card sem oferta de emprego, mas a realidade para quem nasceu na China ou na Índia é distinta. Por força das limitações per-country impostas pelo INA §202(a)(2), que reservam no máximo 7% dos vistos imigrantes anuais a cada país de nascimento, a fila para esses dois grupos se estende por anos enquanto o restante do mundo costuma estar com a categoria current ou quase. Compreender essa assimetria é o primeiro passo para quem precisa planejar carreira, família e permanência nos Estados Unidos.
Por que o backlog atinge China e Índia
O Departamento de Estado distribui anualmente cerca de 40.040 vistos na categoria EB-2, somando o ajuste do EB-1 não utilizado e descontando casos consulares. Quando a demanda de um único país de nascimento ultrapassa os 7% per-country, esse país entra em retrogression e passa a depender da rolagem mensal do Visa Bulletin. China e Índia são as únicas nacionalidades historicamente cronicamente atrasadas no EB-2 por uma combinação de população elevada de profissionais qualificados nos Estados Unidos sob H-1B, alta taxa de aprovação de I-140 e ausência de jubileus de cotas que zeram filas.
O Visa Bulletin publicado mensalmente pelo Department of State traz duas tabelas: Final Action Dates (quando o Green Card pode efetivamente ser emitido) e Dates for Filing (quando o pedido pode ser protocolado, sujeito a permissão do USCIS). Para nascidos na Índia, a Final Action Date no EB-2 segue presa em meados da década de 2010 ao longo de 2025 e 2026; para a China, as datas variam mas frequentemente operam com vários anos de defasagem. As demais nacionalidades costumam ter cutoff mais perto do mês corrente.
O valor estratégico do I-140 aprovado
Mesmo sem priority date current, obter a aprovação do Form I-140 sob NIW abre um conjunto de benefícios práticos que mudam o jogo para quem precisa esperar a fila do Visa Bulletin. Esses benefícios derivam principalmente do American Competitiveness in the Twenty-First Century Act (AC21) e de regulamentos do USCIS, e são consolidados em quatro pilares.
Extensões de H-1B além dos seis anos
O AC21 §104(c) permite renovações de H-1B em incrementos de três anos, sem o limite tradicional de seis anos, para o estrangeiro com I-140 aprovado em categoria que esteja em retrogression. O §106(a) do mesmo diploma autoriza extensões anuais quando o Labor Certification ou o I-140 estão pendentes há mais de 365 dias. Para profissionais nascidos na Índia em particular, essa válvula de escape é o que viabiliza permanecer trabalhando legalmente nos Estados Unidos durante a longa espera.
Autorização de trabalho para o cônjuge H-4
Desde 2015, regulamento do DHS permite que cônjuges em status H-4 obtenham EAD (Employment Authorization Document) por meio do Form I-765, desde que o titular H-1B tenha I-140 aprovado ou esteja em extensão amparada pelo §106(a) do AC21. A elegibilidade segue ameaçada por propostas de revogação periódicas, mas, em 2026, continua válida. Para famílias indianas e chinesas que enfrentam backlog de mais de uma década, o EAD H-4 é frequentemente o componente que viabiliza a renda dual e a estabilidade financeira.
Retenção e portabilidade da priority date
O regulamento 8 CFR 204.5(e) garante que a priority date estabelecida em uma petição I-140 aprovada possa ser retida e usada em I-140 posteriores apresentadas em qualquer categoria EB-1, EB-2 ou EB-3. Na prática, um profissional indiano que aprova um I-140 EB-2 NIW em 2026 e, mais tarde, é beneficiário de um I-140 EB-1 patrocinado por empregador, mantém a data antiga, podendo pular vários anos da fila.
Portabilidade de emprego pós-I-485
O AC21 §106(c) (codificado em INA §204(j)) permite trocar de emprego após o I-485 estar pendente por mais de 180 dias, desde que a nova vaga seja em ocupação same or similar. Embora dependa de o I-485 já estar protocolado (o que exige priority date current ou Dates for Filing aceito pelo USCIS), é um benefício a contemplar no planejamento de longo prazo.
Calendário realista para indianos e chineses
O processamento do I-140 sob NIW, sem premium processing histórico até 2022 e com premium agora disponível em pelo menos parte dos centros, leva de quatro a oito meses em condições normais. Esse é o passo independente do Visa Bulletin. Após a aprovação, a espera pelo Green Card propriamente dito é onde a desigualdade aparece: enquanto um brasileiro ou nigeriano aprovado hoje pode protocolar o I-485 em poucos meses, um nascido na Índia pode esperar 10 a 15 anos dependendo do movimento da fila.
Por isso a recomendação consistente para esses dois grupos é: protocolar o I-140 NIW o mais cedo possível, pois é a priority date que congela a posição na fila. Cada mês de atraso significa um mês a mais perdido em retrogression. Profissionais que ainda não têm I-140 e estão sob H-1B há cinco anos correm risco real de não conseguir extensão além dos seis anos.
Quando faz sentido buscar EB-1 em paralelo
Para indianos com perfil acadêmico ou profissional muito robusto, vale considerar o EB-1A (Extraordinary Ability) ou EB-1B (Outstanding Researcher) em paralelo, pois o EB-1 historicamente tem fila menor para Índia e China que o EB-2, embora também sofra retrogression em algumas janelas. A combinação NIW como base segura e EB-1 como aceleração é uma estratégia comum entre engenheiros sêniores, pesquisadores e empreendedores. Manter a priority date original via 8 CFR 204.5(e) garante que esforços anteriores não sejam perdidos.
O que muda em 2026
Discussões legislativas sobre eliminação de cotas per-country (HR 3648 e variantes) ressurgem periodicamente, mas até a data deste artigo nenhuma proposta foi convertida em lei. O Visa Bulletin de abril de 2026 mantém a estrutura tradicional, com China EB-2 e Índia EB-2 em retrogression severa. Acompanhar o boletim mensalmente é parte da rotina de qualquer beneficiário, e o site oficial do Department of State (travel.state.gov) é a única fonte autoritativa.
Victoria Harper
Editora-Chefe
Como jornalista e editora líder do Visto n’ Visa, Victoria contribui para que os temas de imigração sejam abordados de forma clara, confiável e fácil de entender. Seu foco é oferecer conteúdo útil, humano e relevante para pessoas que exploram novos caminhos no exterior.