Desde 20 de junho de 2025, candidatos a vistos de estudante e intercâmbio nos Estados Unidos passaram a operar sob uma regra inédita: todos os perfis de redes sociais informados na aplicação precisam estar configurados como públicos enquanto o pedido estiver sob análise consular. A medida foi anunciada pelo Departamento de Estado em 18 de junho de 2025 e atinge especificamente as categorias F (estudante acadêmico), M (estudante vocacional) e J (intercâmbio cultural ou profissional). Essa atualização reforça que o histórico digital se tornou parte integrante do processo de triagem, e quem planeja estudar ou participar de programa de intercâmbio nos EUA precisa entender com precisão o que está em jogo.
O que mudou na triagem consular
O formulário DS-160 já exigia, desde 2019, que candidatos a quase todas as categorias de visto não imigratório listassem identificadores de redes sociais usados nos cinco anos anteriores. A novidade de 2025 é a obrigação ativa de manter esses perfis acessíveis ao público durante a análise. Em outras palavras, listar a conta no formulário deixou de ser suficiente: o oficial consular precisa conseguir abrir cada perfil sem barreiras de privacidade.
Plataformas mais comuns na verificação incluem Facebook, Instagram, X (antigo Twitter), TikTok, YouTube, LinkedIn, Reddit e VKontakte. A lista oficial de plataformas suportadas pelo DS-160 é mantida pelo Departamento de Estado e atualizada periodicamente. Candidatos que omitirem contas ativas correm risco de negação por má-fé processual, com base no INA §212(a)(6)(C)(i), que trata de fraude e deturpação material.
O que os oficiais consulares procuram
A análise não é uma busca aleatória por conteúdo polêmico. Ela tem foco específico em sinais que possam indicar inelegibilidade sob estatutos de segurança, ordem pública e adequação ao propósito declarado do visto. Entre os elementos que costumam gerar pedidos de informação adicional ou negativas estão:
- Apoio explícito a organizações designadas como terroristas pelo governo dos EUA;
- Discurso de ódio, ameaças de violência ou incitação contra grupos protegidos;
- Manifestações que neguem ou justifiquem ataques antissemitas, considerando a interpretação ampliada adotada após 2024;
- Contradições entre a vida online e o motivo declarado do visto, como um candidato F-1 cuja presença pública sugere intenção imigratória permanente;
- Indícios de envolvimento em atividades ilícitas, como tráfico de drogas, fraude ou trabalho não autorizado anterior nos EUA.
Crítica política legítima a governos, inclusive ao próprio governo dos EUA, não constitui, por si só, motivo de inelegibilidade. O que pesa é a combinação entre conteúdo, contexto e a categoria de visto pretendida.
Quem é mais afetado
A regra atinge integralmente as categorias F-1, F-2, M-1, M-2, J-1 e J-2. Estudantes universitários, alunos de escolas técnicas, participantes de programas de intercâmbio cultural, au pairs, pesquisadores visitantes e médicos em programas de treinamento J-1 estão dentro do escopo. Cônjuges e dependentes que solicitarem visto derivado também precisam manter redes sociais públicas durante a análise dos seus respectivos processos.
Para quem possui presença online discreta ou pouca atividade pública, a recomendação é não criar perfis artificialmente. A ausência de redes sociais não é, por si só, suspeita, desde que o candidato responda com transparência ao formulário. O problema surge quando há contas ativas e elas permanecem privadas durante a análise.
Como preparar a presença digital antes de aplicar
Uma auditoria estruturada das redes sociais reduz o risco de pedidos administrativos sob a seção 221(g) do INA, que costumam atrasar a análise em semanas ou meses. As recomendações abaixo são reconhecidas por advogados de imigração que atuam regularmente em consulados de Brasília, Rio, São Paulo, Recife e Porto Alegre:
- Liste com precisão todos os identificadores de redes sociais ativas dos últimos cinco anos no DS-160. Esquecer uma conta antiga e ativa pode ser interpretado como omissão.
- Configure todos os perfis listados em modo público pelo menos duas semanas antes do envio da aplicação.
- Revise postagens, curtidas, comentários e compartilhamentos antigos. Contexto importa: uma sátira pode ser lida fora de contexto por um oficial que não fala português fluente.
- Mantenha coerência entre o conteúdo público e o propósito declarado. Se o objetivo é cursar mestrado, a presença online ideal evidencia preparo acadêmico, não planos de estabelecimento permanente nos EUA.
- Evite alterações em massa de última hora. Apagar centenas de postagens em poucos dias pode ser detectado por ferramentas de análise e gerar suspeita.
- Mantenha os perfis públicos até a emissão do visto e a entrada efetiva nos EUA. A análise pode incluir reverificação até o momento da admissão pelo CBP.
Implicações práticas além da aplicação
A obrigatoriedade de redes públicas durante a análise consular tende a se estender, na prática, ao período de permanência. Estudantes F-1 que mantêm o status ativo no SEVIS estão sob escrutínio contínuo, e infrações migratórias evidentes em redes sociais podem motivar revogação de visto sob a autoridade do 22 CFR 41.122. Houve casos documentados em 2024 e 2025 de revogações decididas a partir de postagens públicas que indicavam trabalho não autorizado ou participação em atos considerados incompatíveis com o status de não imigrante.
Quando buscar orientação especializada
Casos com histórico de ativismo político relevante, conteúdo religioso sensível, atuação jornalística ou produção acadêmica em temas controvertidos pedem análise prévia caso a caso. Pesquisadores J-1 ligados a áreas estratégicas como inteligência artificial, biotecnologia e energia nuclear também enfrentam triagem reforçada sob o Programa de Visa Mantis, que pode acionar análise interagências e estender o prazo de decisão. Nesses cenários, a preparação documental e a curadoria do histórico digital exigem mais cuidado do que o checklist padrão.
A regra sobre redes sociais não inviabiliza a aprovação do visto. O que ela faz é ampliar a janela pela qual o consulado avalia a credibilidade do candidato. Quem entende essa janela e organiza a presença online com a mesma seriedade da papelada acadêmica e financeira tende a chegar à entrevista com um caso mais sólido e previsível.
Victoria Harper
Editora-Chefe
Como jornalista e editora líder do Visto n’ Visa, Victoria contribui para que os temas de imigração sejam abordados de forma clara, confiável e fácil de entender. Seu foco é oferecer conteúdo útil, humano e relevante para pessoas que exploram novos caminhos no exterior.