Mais de 47 milhões de admissões em 2024 foram feitas com vistos B-1/B-2, segundo o Office of Immigration Statistics do Department of Homeland Security. Esse é, de longe, o canal mais usado para entrar legalmente nos Estados Unidos. Apesar do volume, há uma confusão recorrente entre os viajantes sobre o que esses vistos efetivamente permitem em termos de atividade profissional. A linha entre uma simples conversa de networking e uma entrevista de emprego pode determinar a sua próxima entrada no país.
O visto B-1 é destinado a atividades comerciais limitadas, enquanto o visto B-2 cobre turismo, visitas familiares e tratamento médico. Ambos são vistos de não imigrante categorizados pela seção 101(a)(15)(B) do Immigration and Nationality Act (INA) e regulamentados em 8 CFR 214.1 e 22 CFR 41.31. A premissa central, comum às duas modalidades, é uma só: nenhum tipo de trabalho remunerado em solo americano é autorizado.
O que o B-2 permite e proíbe
O B-2 cobre férias, visita a parentes e amigos, tratamento médico, participação em eventos sociais ou recreativos como amador, e cursos de curta duração não creditados. Em todos esses casos, o visitante não pode receber pagamento de fonte americana nem prestar serviços a uma empresa nos EUA, ainda que de forma não remunerada.
A U.S. Citizenship and Immigration Services (USCIS) é categórica: trabalhar para um empregador americano sem autorização configura unauthorized employment, mesmo que a atividade seja realizada de modo remoto, voluntário ou em troca apenas de hospedagem. A consequência imediata pode ser a perda de status, recusa em futuras admissões e barras de inadmissibilidade previstas em INA 212(a)(9).
O que o B-1 cobre
O B-1 permite reuniões de negócios, negociações contratuais, participação em conferências e seminários profissionais, consultas com clientes e visitas a fornecedores. O viajante pode ainda assinar contratos em nome de seu empregador estrangeiro e participar de processos judiciais ou arbitragens. O ponto-chave é que a remuneração precisa vir de fonte fora dos EUA e o vínculo trabalhista permanece com a empresa do exterior.
O Foreign Affairs Manual, em 9 FAM 402.2-5, lista atividades aceitas e vedadas. Entre as proibições mais relevantes está executar trabalho que normalmente seria desempenhado por um trabalhador americano, ainda que sem pagamento. Treinamentos pagos por empresas dos EUA também não se encaixam no B-1.
Entrevistas e busca ativa de emprego
O ponto mais sensível do regime B-1/B-2 é justamente o tema deste artigo. Participar de uma entrevista exploratória, sem oferta concreta e sem início imediato de trabalho, costuma ser tolerado como atividade de negócios incidental, especialmente sob o B-1. Já enviar currículos, comparecer a processos seletivos com proposta de contratação imediata e firmar acordos de trabalho em solo americano caracteriza intenção de empregar-se sem autorização.
Há um detalhe técnico que pesa muito na entrada pelo aeroporto: o Customs and Border Protection (CBP) avalia a intenção primária do viajante. Se ele declara turismo mas o oficial encontra entrevistas agendadas, contatos com recrutadores e cartas de oferta no celular, a entrada pode ser negada e o visto cancelado por misrepresentation, com base em INA 212(a)(6)(C)(i).
Trabalho remoto durante a viagem
A questão do trabalho remoto para empregador estrangeiro é tratada com nuance. A posição majoritária dos especialistas, com respaldo em opiniões legais e práticas administrativas do CBP, é a de que tarefas pontuais e incidentais para um empregador no país de origem, sem prestação de serviços a clientes ou empresas americanas, costumam ser toleradas durante uma estadia turística. Não há, contudo, regra escrita autorizando essa prática, e a tolerância varia conforme o oficial.
O risco aumenta quando a permanência se estende por semanas ou meses, quando o trabalho passa a representar a finalidade real da viagem, ou quando há atendimento de clientes nos EUA. Nesses cenários, a recomendação é buscar um visto adequado, como o B-1 com finalidade clara de negócios ou um visto de trabalho.
Networking e eventos profissionais
O B-2 admite a presença em conferências, feiras setoriais e workshops abertos ao público, desde que o visitante não atue como expositor remunerado nem participe de painéis pagos. Conversas informais com profissionais da área, troca de cartões e consultas a recrutadores em estandes não configuram, por si, violação de status.
O limite começa quando há agenda formal de processo seletivo, testes técnicos presenciais ou rodadas de entrevistas estruturadas. A diferença entre construir relacionamento e buscar emprego ativo é justamente o ponto que oficiais de imigração avaliam ao analisar histórico de viagens, padrões de permanência e correspondências eletrônicas.
Mudança de status e a regra dos 90 dias
Quem entra com B-1 ou B-2 e logo depois solicita ajuste de status para uma categoria de trabalho enfrenta o escrutínio da chamada regra dos 90 dias, descrita no Foreign Affairs Manual. Atos incompatíveis com a finalidade declarada na entrada, praticados nos primeiros 90 dias, geram presunção de fraude na obtenção do visto.
Entre os atos sinalizados estão começar a trabalhar sem autorização, casar com cidadão americano e solicitar ajuste de status com base no casamento, e matricular-se em curso acadêmico. A presunção pode ser derrubada com evidências de mudança de circunstâncias, mas o processo costuma ser custoso e de resultado incerto.
Caminhos legais para trabalhar nos EUA
Para quem deseja trabalhar legalmente, o caminho passa por categorias específicas de visto. O H-1B atende profissionais de ocupações especializadas, com diploma de bacharel ou superior, e exige patrocínio de empregador americano e participação na loteria anual. O L-1 serve a transferências intracompanhia entre matriz e subsidiária. O O-1 é direcionado a profissionais com habilidade extraordinária comprovada em ciências, artes, educação, negócios ou esportes.
Para quem busca residência permanente baseada em emprego, as categorias EB-1, EB-2, EB-2 NIW, EB-3 e EB-5 oferecem rotas distintas, com requisitos próprios de qualificação, oferta de emprego, certificação trabalhista e investimento. Cada uma delas pressupõe processo formal junto à USCIS e, em geral, processamento consular ou ajuste de status.
Penalidades por violação de status
O trabalho não autorizado em solo americano tem consequências graves. A perda automática de status pode levar à acumulação de presença ilegal, com barras de três ou dez anos para reentrada conforme INA 212(a)(9)(B). Quem ultrapassa o período autorizado pelo CBP, registrado no formulário I-94, fica sujeito ainda à revogação automática do visto válido, conforme INA 222(g).
Em casos mais sérios, há barra permanente de inadmissibilidade para quem reentra ou tenta reentrar nos EUA após acumular um ano ou mais de presença ilegal. Detecções em fronteira podem resultar em expedited removal, com proibição de retorno por cinco anos sem possibilidade de defesa formal.
Recomendações práticas antes da viagem
Quem planeja explorar o mercado de trabalho americano sem cair em armadilhas legais deve, antes do embarque, definir com clareza a finalidade da viagem e ajustá-la ao tipo de visto apropriado. Vale ainda manter documentação coerente com o turismo declarado, incluindo passagem de retorno, comprovantes de hospedagem, vínculos no país de origem e itinerário.
Se houver intenção de prospectar oportunidades, é prudente classificar essas atividades como networking exploratório, não como processo seletivo formal, e ter cautela com o conteúdo de mensagens, e-mails e perfis profissionais que podem ser inspecionados na entrada. Para qualquer trabalho efetivo, o passo correto é deixar os EUA, obter o visto adequado em consulado no país de residência e retornar com a autorização correspondente.
Victoria Harper
Editora-Chefe
Como jornalista e editora líder do Visto n’ Visa, Victoria contribui para que os temas de imigração sejam abordados de forma clara, confiável e fácil de entender. Seu foco é oferecer conteúdo útil, humano e relevante para pessoas que exploram novos caminhos no exterior.