Os Estados Unidos enfrentam o cenário mais agudo de escassez de profissionais de saúde das últimas décadas, e essa lacuna estrutural transformou a imigração médica e odontológica em peça central da política de saúde pública americana. Para médicos e dentistas formados fora dos EUA, o momento atual representa uma janela concreta de oportunidade – desde que a rota imigratória escolhida converse com o perfil do profissional, com a especialidade e com o local onde ele pretende exercer.
A engrenagem é dupla: de um lado, o sistema de saúde americano não consegue formar médicos e dentistas no ritmo necessário para atender uma população em envelhecimento; de outro, programas federais e estaduais foram desenhados especificamente para atrair profissionais estrangeiros para regiões carentes. Entender esse ecossistema é o primeiro passo para qualquer médico ou dentista que cogite construir carreira nos EUA.
O tamanho real do déficit
A Associação Americana de Faculdades de Medicina (AAMC) projeta uma carência de até 86 mil médicos até 2036, impulsionada pela aposentadoria de uma fatia expressiva da força de trabalho e pela limitação histórica de vagas de residência. O National Center for Health Workforce Analysis, vinculado à Health Resources and Services Administration (HRSA), trabalha com cenários ainda mais severos: o déficit total pode chegar a 187 mil médicos até 2037, sendo aproximadamente 87 mil apenas em atenção primária.
Em março de 2025, a HRSA registrou que mais de 77 milhões de americanos viviam em áreas classificadas como Health Professional Shortage Areas (HPSAs) – regiões com carência grave de médicos de atenção primária. Para cobrir o vão atual, o sistema precisaria incorporar cerca de 13 mil médicos adicionais. Sudeste e Meio-Oeste lideram o ranking das regiões mais afetadas, com comunidades inteiras dependendo de uma rede mínima de consultórios.
O cenário odontológico é igualmente crítico. A HRSA contabiliza 59,7 milhões de pessoas residindo em dental HPSAs, com déficit estimado em torno de 10 mil dentistas. A American Dental Association projeta uma escassez de aproximadamente 10 mil dentistas até 2030, agravada pelo fato de que cerca de 40% dos dentistas americanos estão próximos da aposentadoria, sem reposição equivalente entre os novos formandos.
Por que faltam profissionais
Três forças estruturais alimentam a crise. A primeira é demográfica: a expectativa de vida americana cresceu, e a população acima dos 65 anos demanda volume e complexidade de cuidados que pressionam todas as especialidades, da geriatria à cardiologia. A segunda é regulatória: o teto de vagas de residência financiadas pelo Medicare, conhecido como GME Cap e congelado desde a década de 1990, restringe artificialmente a formação de novos médicos mesmo quando há candidatos qualificados disponíveis.
A terceira é o esgotamento profissional. Pesquisa Medscape de agosto de 2025 indicou que 63% dos médicos americanos relatam vagas em aberto sem profissionais qualificados para preenchê-las. A combinação de cargas de trabalho elevadas, pressão administrativa e legado da pandemia de COVID-19 levou muitos médicos em meio de carreira a reduzir jornadas ou antecipar a saída do consultório. O resultado é um sistema que perde capacidade no topo e não a recompõe na base.
O peso dos médicos formados no exterior
Nesse contexto, os International Medical Graduates (IMGs) deixaram de ser exceção e se tornaram coluna vertebral em várias regiões. Cerca de 24,7% dos médicos ativos nos EUA são graduados em escolas estrangeiras, segundo a AAMC, o que equivale a aproximadamente 325 mil profissionais – alta de quase 18% na década anterior.
Esses médicos concentram presença forte em atenção primária e em áreas rurais. Estima-se que mais de 20% dos médicos de família que atuam nos EUA tenham formação no exterior, frequentemente em condados onde colegas americanos não se fixam. Para o sistema de saúde, eles cobrem uma demanda que de outra forma ficaria descoberta. Para o profissional estrangeiro, o trabalho em área carente é tanto uma porta de entrada quanto, em muitos casos, um caminho acelerado para a residência permanente.
Conrad 30 e o waiver do J-1
O programa Conrad 30 J-1 Visa Waiver é uma das engrenagens mais importantes desse arranjo. Médicos que cursam residência ou fellowship nos EUA com visto J-1 ficam, em regra, sujeitos à exigência de retorno ao país de origem por dois anos antes de pleitear novos vistos ou ajuste de status. O Conrad 30 permite que cada estado conceda até 30 dispensas anuais dessa exigência, em troca de um compromisso de três anos de serviço em tempo integral em área designada como carente, normalmente em HPSA ou MUA.
Em 2025, a AAMC apoiou projeto de lei para ampliar o teto estadual de 30 para 100 dispensas, com o objetivo declarado de aumentar significativamente o número de médicos estrangeiros atuando em comunidades desassistidas. O texto seguia em tramitação no Congresso até abril de 2026, e qualquer aprovação dependerá de articulação bipartidária. Mesmo no formato atual, o programa é o caminho mais utilizado por médicos brasileiros e latino-americanos para transitar do J-1 para um visto de trabalho de longo prazo nos EUA.
H-1B para profissionais de saúde
O visto H-1B é a opção mais conhecida entre médicos e dentistas que pretendem trabalhar nos EUA em posições especializadas. A categoria exige diploma de bacharelado ou superior em campo correlato, oferta formal de emprego de um empregador americano e processo via Labor Condition Application no Departamento do Trabalho.
O H-1B está sujeito a uma loteria anual com teto de 65 mil vagas regulares mais 20 mil para portadores de mestrado ou doutorado obtidos nos EUA. Dados de 2025 mostraram cerca de 5,6 mil titulares de H-1B atuando especificamente em saúde, em um universo total de 442 mil beneficiários. Hospitais universitários, sistemas de saúde sem fins lucrativos e centros de pesquisa afiliados a universidades costumam estar isentos do teto numérico, o que torna essas instituições rotas particularmente atrativas para médicos pesquisadores e especialistas. Dentistas em programas de residência ou fellowship em hospitais também podem se enquadrar nessa isenção.
EB-2 NIW: green card pelo interesse nacional
O EB-2 NIW (National Interest Waiver) é a rota imigratória mais sofisticada e, ao mesmo tempo, mais alinhada com o perfil de médicos e dentistas que atendem áreas carentes. A categoria permite o pedido de green card sem oferta de emprego e sem teste do mercado de trabalho (PERM), desde que o profissional comprove que sua atuação atende ao interesse nacional dos EUA.
O padrão de análise vigente é o teste de três pontas estabelecido em Matter of Dhanasar (2016): o trabalho proposto deve ter mérito substancial e importância nacional, o estrangeiro deve estar bem posicionado para avançá-lo, e o conjunto de circunstâncias deve favorecer dispensar o requerimento de oferta de emprego. Médicos atuando em HPSAs ou em especialidades de demanda crítica frequentemente se enquadram com solidez nas três pontas. Dentistas com perfil de saúde pública ou pesquisa também encontram espaço nessa categoria.
O processo é iniciado pela própria Form I-140 (auto-petição), seguida do ajuste de status via Form I-485 caso o profissional já esteja nos EUA, ou de processamento consular no exterior. As datas de prioridade do EB-2 para nacionais brasileiros têm permanecido relativamente acessíveis no Visa Bulletin recente, embora o quadro mude mês a mês e exija acompanhamento.
O-1 para excelência comprovada
O visto O-1 atende profissionais com habilidade extraordinária comprovada. Para médicos e dentistas, é uma rota viável quando há histórico forte de publicações em revistas indexadas, prêmios reconhecidos, palestras em conferências de prestígio, atuação como revisor de periódicos científicos e cobertura de mídia especializada. O padrão probatório é alto, mas o O-1 não está sujeito a loteria nem a teto numérico, o que o torna alternativa relevante para profissionais de ponta que perderam o sorteio do H-1B.
O que o Congresso discute para 2026
O Resident Physician Shortage Reduction Act de 2025 propõe adicionar 14 mil novas vagas de residência médica ao longo de sete anos, ampliando o teto do GME Cap pela primeira vez em décadas de forma estrutural. Caso aprovado, o projeto aumentará a capacidade de absorção de IMGs em programas de residência, especialmente em atenção primária e especialidades em alta demanda como psiquiatria, geriatria e medicina de emergência.
Outros projetos em tramitação no mesmo ciclo legislativo buscam expandir o Conrad 30 e criar incentivos fiscais para hospitais que recebam médicos estrangeiros em áreas carentes. Nenhuma dessas medidas estava convertida em lei até a data desta publicação, mas o pacote sinaliza que o Congresso reconhece a escassez como problema estrutural e não conjuntural.
Como planejar a transição
Para médicos e dentistas brasileiros que pretendem migrar, o planejamento começa antes da chegada aos EUA. Para médicos, a aprovação nos exames USMLE Step 1, Step 2 CK e Step 3, somada à certificação ECFMG, é pré-requisito para qualquer programa de residência e para a maioria dos vistos de trabalho. Para dentistas, o caminho passa pela National Board Dental Examination e, na maioria dos estados, por programas de Advanced Standing em escolas americanas que culminam em DDS ou DMD reconhecidos pelo American Dental Association Commission on Dental Accreditation.
A escolha entre H-1B, EB-2 NIW e O-1 não é exclusiva: muitos profissionais começam em H-1B ou J-1, migram para EB-2 NIW à medida que consolidam atuação em área carente, e em alguns casos exploram o O-1 como ponte ou alternativa. A mensagem de fundo é que o sistema americano oferece múltiplas portas – e cada porta exige preparo documental, técnico e estratégico para ser atravessada com segurança.
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Victoria Harper
Editora-Chefe
Como jornalista e editora líder do Visto n’ Visa, Victoria contribui para que os temas de imigração sejam abordados de forma clara, confiável e fácil de entender. Seu foco é oferecer conteúdo útil, humano e relevante para pessoas que exploram novos caminhos no exterior.