O processo de obtenção do green card americano passou por mudanças estruturais a partir de março de 2025, com efeitos que continuam moldando a experiência de solicitantes em 2026. A Administração Trump implementou duas medidas que redefiniram o caminho para a residência permanente nos Estados Unidos: a análise aprofundada de redes sociais conduzida pelo USCIS e a suspensão do processamento de pedidos de green card para refugiados e asilados que já haviam sido aprovados sob procedimentos humanitários. Quem está com pedido em curso ou planeja submeter petição precisa entender o impacto dessas medidas para evitar surpresas e ajustar a estratégia migratória.
O contexto da Ordem Executiva de janeiro de 2025
Em 20 de janeiro de 2025, primeiro dia do segundo mandato presidencial, foi assinada a Ordem Executiva intitulada Protecting the United States from Foreign Terrorists and Other National Security and Public Safety Threats. O documento determinou ao Department of Homeland Security, ao Department of State e ao Department of Justice que reforçassem os procedimentos de triagem de estrangeiros que buscam ingressar ou permanecer nos Estados Unidos. A justificativa oficial é a proteção contra ameaças à segurança nacional e à ordem pública.
A ordem opera em duas frentes complementares. Primeiro, exige que os agentes federais ampliem o uso de bases de dados disponíveis, incluindo conteúdo público em plataformas digitais, para verificar a coerência entre o que o solicitante declara em formulários como o I-485, I-130 ou I-140 e a sua presença online. Segundo, autoriza a suspensão temporária de programas de admissão considerados de alto risco até que novos protocolos de verificação sejam implementados.
USCIS amplia o vetting de redes sociais
Em 10 de março de 2025, o United States Citizenship and Immigration Services publicou orientação operacional determinando que oficiais passariam a examinar de forma sistemática o histórico digital dos solicitantes de benefícios imigratórios, incluindo aqueles que pleiteiam o green card. A análise abrange perfis públicos em plataformas como Facebook, Instagram, X, LinkedIn, TikTok e YouTube, considerando postagens antigas e recentes, comentários, conexões, grupos seguidos e conteúdo compartilhado.
O que os oficiais procuram
O foco declarado da análise inclui sinais de associação com organizações designadas como terroristas, manifestações de apoio a grupos extremistas, conteúdo que possa ser interpretado como apologia à violência política, declarações antissemitas, e qualquer divergência entre o que foi declarado nos formulários oficiais e o que aparece publicamente nas redes. Inconsistências em relação a empregadores, locais de residência, vínculos familiares ou viagens podem servir como base para pedido de evidências adicionais via Request for Evidence ou para a negação direta da petição.
A polêmica sobre liberdade de expressão
A medida gerou contestação imediata por parte de organizações de direitos civis. A American Civil Liberties Union e a National Immigration Law Association argumentam que a fiscalização ampliada cria um efeito inibidor sobre a liberdade de expressão de imigrantes, com risco de discriminação baseada em opinião política, religiosa ou em manifestações fora de contexto. Outro ponto sensível é a ausência de limite temporal para a análise, o que significa que postagens feitas há cinco ou dez anos podem influenciar decisões tomadas hoje. O governo, por sua vez, sustenta que a medida é compatível com a soberania americana e com a discricionariedade do executivo na concessão de benefícios imigratórios.
Suspensão do processamento para refugiados e asilados
A segunda mudança, divulgada inicialmente pela CBS News em 25 de março de 2025, atinge solicitantes que já haviam sido reconhecidos como refugiados ou asilados nos Estados Unidos e estavam aguardando o processamento de seus pedidos de ajuste de status para residência permanente. O USCIS suspendeu o adjudicamento dessas petições enquanto procedimentos adicionais de verificação são desenvolvidos.
Quem é diretamente afetado
A medida atinge dois grupos com situações jurídicas distintas. Refugiados são pessoas que passaram por triagem fora dos Estados Unidos, normalmente em campos de refugiados administrados em parceria com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, e que foram aceitas após verificações de segurança, exames médicos e entrevistas. Asilados, por outro lado, solicitam proteção já em solo americano, comprovando perseguição por raça, religião, nacionalidade, opinião política ou pertencimento a grupo social. Após um ano com status de asilado ou refugiado concedido, ambos os grupos têm direito legal de pleitear o green card via Form I-485.
O limbo jurídico criado
Pessoas que já passaram por todas as etapas anteriores e tiveram a proteção humanitária formalmente reconhecida agora aguardam sem prazo definido pela conclusão do processo de residência permanente. Essa pendência tem efeitos práticos importantes: limita a possibilidade de viagens internacionais sem advance parole, dificulta o acesso a programas federais de assistência, atrasa a contagem de tempo necessário para a naturalização e cria insegurança jurídica para milhares de famílias que já reconstruíram suas vidas no país.
O cenário ampliado da política imigratória atual
As mudanças no green card não são medidas isoladas. Elas se inserem em um conjunto mais amplo de decisões executivas que reformulam a política imigratória americana. Foram suspensos novos pedidos de refúgio, restringido o asilo na fronteira sul, paralisadas solicitações vinculadas a programas humanitários criados durante a Administração Biden para nacionais de Cuba, Haiti, Nicarágua, Venezuela e Ucrânia, e ampliados procedimentos de remoção para imigrantes em situação irregular.
Para quem busca o green card por vias econômicas, como EB-1, EB-2, EB-2 NIW, EB-3 e EB-5, ou por vias familiares como CR-1, IR-1 ou K-1, o impacto direto da suspensão é menor, mas o vetting de redes sociais aplica-se a todos. A recomendação prática é fazer auditoria criteriosa do conteúdo público em plataformas digitais antes de submeter qualquer petição, garantir consistência entre o que está declarado nos formulários e o que aparece online, preservar evidências documentais robustas para sustentar todas as informações apresentadas, e considerar o tempo extra que processos podem levar com a triagem ampliada.
O que esperar nos próximos meses
Em abril de 2026, a fiscalização digital permanece em vigor e foi expandida para incluir o cruzamento automatizado de bases de dados federais, estaduais e até comerciais, com tecnologias de processamento de linguagem natural sendo aplicadas para detectar padrões suspeitos. Já a suspensão de processos para refugiados e asilados continua sob disputa judicial, com decisões em diferentes circuitos federais que podem alterar o cenário ao longo de 2026. Solicitantes em qualquer fase do processo devem manter contato com profissionais qualificados, acompanhar atualizações oficiais publicadas pelo USCIS e estar preparados para responder rapidamente a qualquer Request for Evidence relacionado a presença digital ou triagem ampliada.
Victoria Harper
Editora-Chefe
Como jornalista e editora líder do Visto n’ Visa, Victoria contribui para que os temas de imigração sejam abordados de forma clara, confiável e fácil de entender. Seu foco é oferecer conteúdo útil, humano e relevante para pessoas que exploram novos caminhos no exterior.