Quando Elon Musk e parte do entorno de Donald Trump abriram um debate público sobre a necessidade de o setor de tecnologia americano contratar mais profissionais estrangeiros, o visto H-1B voltou ao centro da discussão de imigração nos Estados Unidos. O que poucos comentaristas notaram é que o Brasil ocupa uma posição relevante nessa disputa: somos a sétima nacionalidade que mais recebe esse tipo de autorização de trabalho. Essa colocação não é simbólica. Reflete uma fila crescente de engenheiros, cientistas de dados, médicos, dentistas e pesquisadores que veem nos EUA um destino viável para suas carreiras.
O que é o visto H-1B
O H-1B é um visto temporário de trabalho destinado a profissionais com formação superior contratados em ocupações especializadas. Ele exige, em regra, diploma de bacharel ou equivalente comprovado por avaliação acadêmica na área da vaga oferecida. O empregador americano patrocina a petição, paga as taxas e assume obrigações trabalhistas vinculadas ao salário prevalecente daquela função e região.
A duração inicial é de até três anos, prorrogável por mais três. Em casos específicos, ligados a uma petição I-140 aprovada com retrogressão na fila do green card, o trabalhador pode estender o status indefinidamente em incrementos de um ou três anos com base nas seções 104(c) e 106(a) e (b) do AC21.
A cota anual e o sorteio
A legislação americana fixa um teto anual de 85 mil novos vistos H-1B fora dos cap-exempt employers, como universidades, hospitais ligados a universidades e centros de pesquisa sem fins lucrativos. Esses 85 mil dividem-se em duas faixas:
- 65 mil destinados a profissionais com bacharelado ou equivalente, conhecidos como regular cap;
- 20 mil reservados a quem obteve mestrado ou doutorado em instituição americana credenciada, conhecidos como master’s cap.
A demanda supera o teto há mais de uma década. Em 2024, o USCIS recebeu mais de 780 mil registros eletrônicos para a temporada do H-1B, e o resultado é decidido em sorteio aleatório. Apenas registros selecionados podem submeter a petição completa I-129. A relação entre aprovação e registro fica em torno de 25% nos primeiros sorteios, com possíveis sorteios adicionais quando o USCIS detecta que parte dos selecionados não submete a petição dentro do prazo.
Brasil entre as dez maiores nacionalidades
Levantamento com base em dados consolidados do Departamento de Estado para o período de janeiro a outubro de 2024 mostra a seguinte distribuição entre os países que mais receberam o visto H-1B:
| País | Vistos H-1B emitidos |
|---|---|
| Índia | 118.358 |
| China | 24.574 |
| Filipinas | 2.838 |
| Coreia do Sul | 1.810 |
| México | 1.616 |
| Paquistão | 1.389 |
| Brasil | 1.366 |
| Taiwan | 1.285 |
| Reino Unido | 1.119 |
| França | 791 |
A Índia concentra cerca de 70% das emissões globais, fenômeno explicado pela forte presença de empresas de TI indianas atuando nos EUA por meio de modelos de outsourcing. China aparece distante em segundo, e a partir daí a distribuição se aproxima entre nações com fortes setores acadêmicos e técnicos.
Setores que mais empregam H-1B
O visto sustenta majoritariamente vagas em tecnologia da informação, com Google, Microsoft, Amazon, Apple, Meta e empresas de consultoria entre os maiores patrocinadores. Áreas como inteligência artificial, ciência de dados, engenharia de software, cibersegurança e arquitetura de cloud lideram em volume.
O setor de saúde também depende do H-1B. Hospitais americanos contratam médicos especialistas em radiologia, anestesia, oncologia e cirurgia geral, especialmente em regiões com escassez declarada de profissionais classificadas como Health Professional Shortage Areas. Dentistas, farmacêuticos e fisioterapeutas com licenciamento estadual completam o quadro.
Universidades e centros de pesquisa contratam cientistas e professores fora do teto regulatório, o que torna o academic cap-exempt H-1B uma rota frequente para pós-doutorandos e pesquisadores brasileiros.
Por que o debate ganhou força
O debate iniciado no fim de 2024 reflete duas leituras opostas sobre o impacto do H-1B na economia americana. De um lado, executivos do Vale do Silício defendem a expansão da cota ou sua eliminação para vagas em áreas críticas, argumentando que o ecossistema de inovação dos EUA depende de talentos formados no exterior. De outro, parte do espectro político argumenta que o programa pressionaria salários e reduziria oportunidades para trabalhadores americanos em ocupações de entrada e nível médio em TI.
Os números do mercado de trabalho ajudam a contextualizar a discussão. Os relatórios do Bureau of Labor Statistics indicaram, ao final de 2024, mais de sete milhões de vagas abertas e cerca de sete milhões de desempregados, mas a sobreposição de competências entre vagas abertas e profissionais disponíveis nem sempre é direta, principalmente em ocupações STEM altamente especializadas.
O que muda em 2025 e 2026
Para o cap H-1B do FY2026, com vagas iniciadas em outubro de 2025, o USCIS adotou um novo método de sorteio chamado beneficiary-centric selection. Em vez de sortear registros, o sistema sorteia beneficiários únicos. Cada pessoa entra no sorteio uma vez, mesmo que tenha múltiplos empregadores patrocinadores. Esse ajuste reduziu fraudes envolvendo registros inflados por uma mesma pessoa em diversas empresas.
Outro ponto de atenção é a taxa de registro. Para o FY2026, o USCIS elevou o registration fee de US$ 10 para US$ 215 por beneficiário, mudança publicada na regulamentação final que entrou em vigor em 2025. As taxas de petição completa I-129 e os adicionais ACWIA e fraud prevention permaneceram estáveis na escala vigente.
Movimento brasileiro e fuga de cérebros
O posicionamento do Brasil entre os dez maiores acompanha um movimento mais amplo. Em 2023, mais de 28 mil brasileiros receberam green card, número recorde nas estatísticas americanas. O país também figura entre os cinco com maior número de estudantes internacionais matriculados em universidades americanas e entre os primeiros em pesquisadores intercambistas via J-1.
Fatores citados em pesquisas acadêmicas e relatórios setoriais incluem maiores remunerações em dólar, infraestrutura de pesquisa, exposição a mercados globais, instabilidade institucional doméstica e a percepção de menor risco para carreiras em ciência e engenharia.
Alternativas quando o H-1B não funciona
Profissionais que não conseguem ser selecionados no sorteio recorrem a outras vias legais. Entre as mais usadas estão:
- O-1A: extraordinary ability em ciências, negócios, educação e atletismo, sem cota anual e sem sorteio;
- L-1A/L-1B: transferência intracompanhia para gerentes, executivos e empregados com conhecimento especializado;
- EB-2 NIW: green card por interesse nacional, com autopetição que dispensa empregador;
- E-2: investidor de tratado, disponível para nacionais de países com tratado bilateral aplicável;
- TN: profissionais elegíveis sob USMCA, restrito a nacionais de Canadá e México.
A escolha depende do perfil profissional, da estabilidade pretendida, do tempo disponível e do apetite por risco regulatório. Cada caminho tem requisitos próprios de evidência, prazos de processamento e implicações para dependentes.
Como se posicionar para o sorteio
Quem pretende ser registrado no próximo cap precisa estar empregado por uma empresa americana disposta a patrocinar e a pagar o salário prevalecente do Department of Labor para a função e a região. O período de registro normalmente acontece em março, com seleção em abril e início de validade em outubro do mesmo ano fiscal federal. Empresas estabelecem prazos internos para coletar diplomas, transcripts, evidências de experiência e job descriptions detalhadas que sustentem a classificação como specialty occupation.
Profissionais com mestrado ou doutorado de instituição americana credenciada têm vantagem estatística por participarem de dois sorteios, primeiro no master’s cap e depois, se não selecionados, no regular cap.
Victoria Harper
Editora-Chefe
Como jornalista e editora líder do Visto n’ Visa, Victoria contribui para que os temas de imigração sejam abordados de forma clara, confiável e fácil de entender. Seu foco é oferecer conteúdo útil, humano e relevante para pessoas que exploram novos caminhos no exterior.