O visto EB-1 é uma das categorias mais vantajosas do sistema de imigração americano: oferece green card sem necessidade de certificação trabalhista (PERM), permite auto-petição na subcategoria EB-1A e conta com prioridade no Visa Bulletin. Mesmo assim, profissionais altamente qualificados descartam essa via antes mesmo de avaliar suas chances reais. O motivo quase sempre são mitos que distorcem os critérios de elegibilidade e criam uma barreira psicológica inexistente na lei.
A categoria EB-1 está prevista na Seção 203(b)(1) do Immigration and Nationality Act (INA) e regulamentada em 8 CFR § 204.5(h). Ela se divide em três subcategorias: EB-1A (habilidade extraordinária), EB-1B (professores e pesquisadores de destaque) e EB-1C (executivos e gerentes multinacionais). Cada subcategoria tem requisitos distintos, mas todas compartilham a primeira preferência na fila de vistos de imigrante baseados em emprego. Entender o que a lei realmente exige é o primeiro passo para separar fato de ficção.
Nobel ou Oscar não são requisito
O mito mais comum é que o EB-1A exige um prêmio do calibre de um Nobel, Pulitzer ou Oscar. A confusão nasce de uma leitura incompleta do regulamento. O 8 CFR § 204.5(h)(3) estabelece que o peticionário pode se qualificar de duas formas: apresentar evidência de um prêmio internacional importante de grande aclamação ou satisfazer pelo menos três dos dez critérios listados nos incisos (i) a (x). A esmagadora maioria dos casos aprovados segue a segunda via.
Os dez critérios incluem: prêmios de excelência reconhecidos nacional ou internacionalmente, participação em associações que exigem realizações notáveis, material publicado sobre o trabalho do peticionário em mídia de destaque, participação como juiz do trabalho de outros na área, contribuições originais de importância significativa, autoria de artigos acadêmicos em publicações profissionais, exibições artísticas, papel de liderança ou crítico em organizações de reputação distinta, remuneração elevada em relação a pares e sucesso comercial nas artes performáticas.
A USCIS aplica a chamada análise Kazarian em duas etapas: primeiro verifica se as evidências satisfazem ao menos três critérios; depois avalia a totalidade das provas para determinar se o peticionário realmente se encontra no topo de sua área. Não é necessário um prêmio de nível mundial. É necessário demonstrar, com documentação sólida, que suas realizações o colocam entre a pequena porcentagem de profissionais de destaque no campo.
Qualquer campo profissional se qualifica
Outro equívoco frequente é imaginar que o EB-1 serve apenas para cientistas, artistas ou atletas. A definição legal de habilidade extraordinária abrange ciências, artes, educação, negócios e atletismo, conforme o INA § 203(b)(1)(A). Na prática, a USCIS tem aprovado petições de executivos de tecnologia, empreendedores, engenheiros, médicos, designers, chefs de cozinha, jornalistas, consultores financeiros e profissionais de dezenas de outros setores.
O critério determinante não é o campo, mas o nível de reconhecimento dentro dele. Um engenheiro de software com contribuições originais para projetos de código aberto amplamente adotados, publicações em conferências de prestígio e remuneração no percentil superior pode construir um caso tão robusto quanto um físico com artigos em periódicos indexados. A chave está na qualidade e consistência das evidências, não no título profissional.
Oferta de emprego depende da subcategoria
A exigência de oferta de emprego nos EUA varia conforme a subcategoria do EB-1. Para o EB-1A, não há essa exigência. O profissional pode fazer a auto-petição (self-petition) por meio do Formulário I-140, sem necessidade de um empregador americano como patrocinador. Isso confere total autonomia para buscar oportunidades após a obtenção do green card.
O EB-1B exige que um empregador americano, seja universidade ou instituto de pesquisa, apresente a petição e comprove uma oferta de posição permanente. O EB-1C também requer petição pelo empregador, que deve ser a filial, subsidiária, matriz ou afiliada da empresa multinacional onde o executivo ou gerente atuou no exterior por pelo menos um dos três anos anteriores à transferência.
Compreender essa distinção é fundamental no planejamento: se o objetivo é independência de empregador, o EB-1A é o caminho. Se já existe vínculo com uma multinacional ou instituição acadêmica, as subcategorias B e C podem ser mais diretas.
Três critérios bastam, não dez
O regulamento lista dez critérios, mas exige o cumprimento de apenas três. Muitos profissionais olham a lista completa, não se identificam com todos os itens e desistem. Esse raciocínio ignora a própria estrutura legal: a norma foi desenhada para abranger perfis diversos, e nenhum campo profissional exige proficiência simultânea em todos os dez pontos.
As três categorias mais acessíveis para a maioria dos profissionais costumam ser: contribuições originais de importância significativa (critério v), papel de liderança ou crítico em organizações de reputação distinta (critério viii) e remuneração elevada em relação a pares na mesma área e região (critério ix). Profissionais acadêmicos frequentemente adicionam artigos acadêmicos (critério vi) e participação como juiz de trabalhos de pares (critério iv).
A qualidade da documentação importa mais do que a quantidade de critérios atendidos. Cartas de referência detalhadas de especialistas independentes, métricas de impacto quantificáveis e evidências de reconhecimento por pares compõem um caso muito mais persuasivo do que atender superficialmente a cinco ou seis critérios sem profundidade probatória.
Custos e prazos em 2026
O custo de filing do Formulário I-140 para auto-peticionários EB-1A é de $1.015 ($715 de taxa base mais $300 de Asylum Program Fee). O processamento premium, que garante uma ação da USCIS em até 15 dias úteis, custa $2.965 adicionais desde março de 2026, mediante o Formulário I-907. O processamento regular leva entre 4,5 e 22,5 meses, dependendo do service center.
O EB-1 é categoria de primeira preferência no sistema de vistos de imigrante baseados em emprego. Para a maioria das nacionalidades, incluindo o Brasil, os números de visto costumam estar correntes (current) no Visa Bulletin, o que significa que não há fila significativa após a aprovação do I-140. Isso contrasta com categorias como EB-2 e EB-3, que podem ter esperas de anos para determinados países.
Profissionais que acreditam estar no topo de seu campo devem avaliar seu perfil com base nos critérios reais do regulamento, não nos mitos que circulam em redes sociais. A barreira de entrada do EB-1 é alta, mas é definida pela lei e pela jurisprudência, e é consideravelmente mais acessível do que a narrativa popular sugere.
Victoria Harper
Editora-Chefe
Como jornalista e editora líder do Visto n’ Visa, Victoria contribui para que os temas de imigração sejam abordados de forma clara, confiável e fácil de entender. Seu foco é oferecer conteúdo útil, humano e relevante para pessoas que exploram novos caminhos no exterior.