O Policy Manual da USCIS recebeu em 15 de janeiro de 2025 a atualização mais detalhada que o programa EB-2 National Interest Waiver havia recebido desde a decisão da AAO em Matter of Dhanasar, de 2016. As mudanças não reescreveram o framework dos três prongs de Dhanasar, mas codificaram interpretações que já vinham aparecendo em Requests for Evidence (RFEs) e em decisões da Administrative Appeals Office. Em 2026, a leitura cuidadosa dessas atualizações é o que separa petições aprovadas em primeiro round de petições que recebem RFE ou negação.
Este texto analisa as implicações práticas para a montagem do conjunto de cartas — referência, expert opinion e recomendação — que sustentam a maior parte das petições NIW. A discussão evita posições absolutas: a tese de que cartas de especialistas independentes se tornaram obsoletas circulou em fóruns durante o primeiro semestre de 2025, mas não encontra base no texto do manual nem nas decisões da AAO publicadas desde então.
O que muda no Policy Manual
A atualização está em USCIS Policy Manual, Volume 6, Part F, Chapter 5. Os três prongs continuam sendo os mesmos definidos em Matter of Dhanasar:
- O proposed endeavor tem mérito substancial e importância nacional
- O peticionário está bem posicionado para avançar o endeavor
- É benéfico, no equilíbrio, dispensar os requisitos de oferta de trabalho e certificação trabalhista
O que a atualização refina é o tipo de evidência considerada persuasiva para cada prong, e dois pontos merecem atenção. Primeiro, o manual reforça que importância nacional não exige impacto geográfico amplo — endeavors com efeito concentrado em comunidades específicas podem qualificar se demonstrarem importância para os Estados Unidos como um todo. Segundo, o manual descreve o ônus probatório esperado em cada prong com mais granularidade do que antes, deixando claro que evidência circunstancial isolada (cartas sem suporte documental) raramente é suficiente.
Tipos de carta e seu peso
Petições NIW costumam combinar três tipos de carta, e o vocabulário usado pela comunidade imigratória nem sempre é consistente. Uma distinção operacional ajuda na hora de planejar quem vai escrever cada carta.
Reference letter
Avaliação relativamente neutra de habilidades, qualificações e contribuições, podendo vir de pessoa interna ou externa à organização do peticionário. Quando vem de pessoa que não conhece o peticionário pessoalmente — geralmente um especialista contatado para emitir parecer — a carta passa a ser tratada na prática como expert opinion, ainda que o autor a chame de reference letter.
Expert opinion letter
Carta escrita por especialista reconhecido no campo do peticionário que não tem vínculo pessoal ou profissional direto com ele. O valor desse documento está na voz independente: o autor avalia o impacto e a relevância do endeavor com base na sua expertise, não na sua relação com o peticionário. Boa parte das petições NIW se apoia em três a cinco expert opinions de pesquisadores, executivos ou líderes de associações profissionais nos EUA.
Recommendation letter
Endosso explícito, escrito por alguém próximo: gerente direto, supervisor de doutorado, sócio. Carrega forte componente subjetivo e a USCIS tradicionalmente atribui peso menor a esse tipo de carta isoladamente, justamente pelo viés natural de quem trabalha com o peticionário.
O Policy Manual atualizado em 2025 não declara obsoleto nenhum desses tipos. O que o manual faz é elevar o padrão de qualidade exigido: cartas precisam ser específicas, ancoradas em exemplos verificáveis e suportadas por evidência documental independente — papers, patentes, prêmios, citation reports, contratos.
O parágrafo que gerou debate
O trecho que motivou interpretações conflitantes está na discussão do prong 2 e diz que cartas podem ser persuasivas quando vêm de especialistas no campo do peticionário com conhecimento direto das suas realizações, descrevem essas realizações, dão exemplos específicos sobre como o peticionário está bem posicionado para avançar o endeavor e são suportadas por evidência independente.
A leitura apressada concluiu que ‘conhecimento direto das realizações’ inviabilizaria expert opinion letters, já que especialistas externos por definição não trabalham diretamente com o peticionário. Essa leitura ignora dois pontos.
Primeiro, o manual cita conhecimento direto como fator que aumenta a persuasão — não como pré-requisito de admissibilidade. Cartas de pessoas que não têm contato direto continuam sendo aceitas; o que pesa é a especificidade do conteúdo. Um expert opinion letter com exemplos detalhados sobre o impacto do endeavor no campo, citando publicações específicas do peticionário e contextualizando essas contribuições com a literatura técnica, é mais persuasivo do que uma recommendation letter genérica de chefe direto.
Segundo, o parágrafo está dentro da discussão do prong 2, que avalia se o peticionário está bem posicionado para avançar o endeavor. Esse prong examina trajetória — o que o peticionário já fez. É natural que a USCIS valorize relatos de testemunhas próximas para esse propósito específico. O prong 1, que avalia mérito substancial e importância nacional do endeavor em si, se beneficia justamente do contrário: vozes externas que confirmem a relevância do tema para o país.
Estratégia para o conjunto de cartas
O conjunto de cartas mais robusto em 2026 combina autores de três círculos distintos.
Círculo interno: uma a duas cartas de superiores hierárquicos (idealmente dois ou mais níveis acima) ou pares senior em outras divisões da mesma organização. Função: documentar o conhecimento direto das contribuições do peticionário, atendendo o ponto explícito do manual sobre o prong 2.
Círculo externo conhecido: duas a três cartas de pesquisadores, executivos ou consultores que já interagiram com o peticionário em projetos colaborativos, conferências ou comitês. Função: voz independente com base concreta para julgar o trabalho.
Círculo externo independente: uma a duas cartas de especialistas reconhecidos sem nenhum vínculo prévio com o peticionário. Função: avaliar a importância nacional do endeavor (prong 1) com a credibilidade que vem da independência total.
Para qualquer dos círculos, três regras se aplicam. As cartas precisam descrever atividades específicas com nomes de projetos, papers, patentes ou produtos. Precisam explicar como essas contribuições se conectam ao endeavor proposto. E precisam vir acompanhadas de evidência documental independente — não basta a carta dizer que o peticionário publicou paper de alto impacto; o paper, suas citações e a métrica do journal precisam estar no record.
Erros comuns que aparecem em RFEs
A leitura sistemática de RFEs e decisões AAO publicadas após janeiro de 2025 mostra três padrões recorrentes que desmontam petições.
O primeiro é a carta genérica. Texto que poderia ter sido escrito sobre qualquer profissional do mesmo campo, sem mencionar projetos, datas, números. A USCIS tem reagido especialmente mal a cartas que parecem ter sido feitas a partir de template — diferenças apenas no nome do peticionário e na assinatura.
O segundo é a carta sem evidência de suporte. A carta afirma que o peticionário lidera projeto de US$ 50 milhões, mas o record não inclui contrato, press release ou comunicação interna que confirme o número. Sob o padrão de ‘preponderance of evidence’, a USCIS pode descartar a alegação isolada.
O terceiro é o desbalanceamento de origem. Petições compostas só por cartas internas (cinco superiores diretos do mesmo empregador) costumam receber RFE pedindo voz independente. Petições só com expert opinion de especialistas distantes recebem RFE pedindo evidência sobre as realizações concretas — exatamente o ponto que o manual atualizado de 2025 reforça.
O peso da evidência objetiva
O Policy Manual atualizado deixa explícito que cartas, por mais bem escritas, complementam mas não substituem evidência documental objetiva. Para o prong 2, isso significa que toda alegação relevante na carta deve ter suporte: prêmios listados precisam ter certificado anexo; publicações citadas precisam estar no record com métricas de citação; patentes mencionadas precisam ter número de registro do USPTO.
Para o prong 1, a evidência objetiva sobre importância nacional inclui relatórios governamentais (BLS, NSF, DOL) que documentem demanda no campo, declarações públicas de agências federais sobre a área, métricas de mercado e impacto econômico do setor.
A petição I-140 com pedido de NIW custa US$ 715 em taxas de USCIS na tabela vigente desde 2024, e o tempo de processamento varia de oito a dezesseis meses dependendo do service center. Premium processing está disponível e custa US$ 2.805 adicionais com prazo de 45 dias úteis. Investir tempo na construção do conjunto de cartas correto, com evidência documental robusta, é mais relevante do que economizar nas taxas — a diferença entre uma aprovação direta e um RFE pode ser de seis meses adicionais no calendário do peticionário.
Victoria Harper
Editora-Chefe
Como jornalista e editora líder do Visto n’ Visa, Victoria contribui para que os temas de imigração sejam abordados de forma clara, confiável e fácil de entender. Seu foco é oferecer conteúdo útil, humano e relevante para pessoas que exploram novos caminhos no exterior.